IV. CONCLUSÃO

 

Mais uma vez, as minorias assumem um papel de particular importância. Elas podem desencadear e promover o despertar de consciências, abrir uma nova página de debate, aduzir argumentos lógico-científicos contrapondo-os às fundamentações tradicionais de autovitimização, habituais lugares-comuns ou oportuno estado de silêncio.

 

É prioritário que as escolas – em primeira linha – e os espaços públicos de debate (onde estão?), extraiam e divulguem, com especial ênfase, as consequências sociais das últimas descobertas científicas. A recente leitura do genoma humano pulverizou as teorias racistas e xenófobas que sustentam os seus preconceitos na ideia de uma suposta superioridade biológica e genética de certas raças em relação a outras. É possível agora, afirmar que, do ponto de vista científico, o conceito de raça não faz qualquer sentido. O que permite extrair, de imediato, a conclusão de uma necessária revisão legislativa e cultural dos textos onde o conceito assume o ancestral reflexo de uma época.

 

Estes estereótipos devem reconduzir-se ao mesmo nível de absurdo que a visão antropológica do crime de Lombroso[1] (1876), sustentando ser comprovável a identificação de um criminoso pelos seus traços fisionómicos.

  

Num mundo plural, a tendência natural do homem é aproximar-se do que lhe está mais próximo, rejeitando, do mesmo modo, o que lhe é diferente. As manifestações de segregação resultam, muitas vezes, numa enganadora força de expressão. Quando uma comunidade se manifesta contra a presença, no seu seio, de um grupo cigano, por exemplo, estará de facto a violar o art. 13º da Constituição da República (princípio da igualdade) ou estará, antes, a reclamar a aplicabilidade do art. 27º (direito à liberdade e à segurança)?

 

As gerações que nos precederam vão transmitindo os estereótipos recebidos, ou entretanto criados, aos seus vindouros. Tal como nós. Daí que defendamos que professores, educadores, animadores e mediadores culturais sejam, de uma forma muito particular, elementos-chave de mudança. Eles são uma extensão da educação familiar e, em regra, têm meios e dispõem de formas de actuação sem concorrência. De pouco vale o saber, sem o saber fazer. Talvez, por isso mesmo, se acredite que a melhor forma educativa é a que é transmitida pelo exemplo, rejeitando-se o tradicional "método Frei Tomás". Como elemento auxiliar, poder-se-á consultar um projecto de lição sobre o tema "Compreender os Estereótipos". Não é mais que um ponto de partida. E essa é, por vezes, a grande frustração com que todos nos deparamos: o que fazer e por onde começar. A imaginação, criatividade, sentido de oportunidade, vivências... são ingredientes inseparáveis da coisa e do ser.

 

A perspectiva multicultural promove a preservação de identidades, o enriquecimento que advém de considerar posições e vivências alheias, de saber dar e receber, de exprimir e escutar opiniões, em suma, de assumir na prática uma interculturalidade. Castrar as minorias é promover a autodestruição das maiorias. Poderá uma existir sem a outra?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Fundador da escola positiva italiana a quem é atribuído o nascimento da criminologia.

 



 

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