I. 3. O SER POLÍTICO-SOCIAL

 

Ultrapassada esta fase primária, o homem adquire uma nova dimensão. O pensamento dirigido para a auto-sobrevivência volta-se, então, para a intersobrevivência. Estamos perante o ser humano enquanto ser social, que, entre diversas acepções e em sentido restrito, pode traduzir-se em “consciência comum dos elementos de um grupo ou sociedade sobre os problemas sociais, posição social do homem e governo ou regulamentação da vida social”.[1] Um ser social que incorpora, entre outros, o elemento político, pois não se pode falar de sociedade sem que se fale da sua organização, regulamentação, o que poderá em última análise levar à célebre frase “o Homem é um animal político”.

 

Aristóteles[2] surge aqui com fundada actualidade. Não só como memória de que o Homem é um ser social por natureza ou que, por natureza, o Homem é um animal político, mas pela reflexão que faz sobre a política, cerca de 300 anos antes de Cristo; usamo-la a pretexto da abordagem a questões caras ao multiculturalismo, e ao multiculturalismo ele próprio.

 

Para Aristóteles, o Estado - cuja função é proporcionar o mais alto bem, uma vida boa - é a mais elevada forma de comunidade, na base da qual se encontra a família, estruturada em duas relações fundamentais: homem e mulher e senhor e escravo. É no seio da família que deve promover-se a discussão da política. Porque não abordar na família, as questões da polis, de que ela própria faz parte? O escravo faz parte da família e, como tal, um dos temas políticos é a escravatura, tida como necessária e justa. O escravo deve ser inferior ao dono, porque, por natureza, senhor e escravo estão no âmbito do que é natural. E escravo é aquele que, por natureza, pertence a outro e não a si mesmo, já que uns nascem para a sujeição e outros para o mando. Aristóteles introduzia a questão da raça, defendendo que os escravos não devem ser gregos, mas de raça inferior, com menos espírito. Sustenta também a discriminação sexual, acreditando que o homem governa melhor os animais domésticos do mesmo modo que os inferiores quando são governados pelos superiores. A construção que desenvolveu sobre escravos e mulheres não permite poder acreditar na igualdade.

 

Comparando diferentes formas de governo, considera a democracia má, porque o poder está nas mãos dos carenciados que não atendem aos interesses dos ricos. Um governo bom é o que procura o bem estar da comunidade e não apenas o seu. No entanto, no desencanto que todas as formas de governo lhe trazem, acaba por defender a democracia, porque nada melhor havia ainda sido inventado.

 

 

 

 



[1] Daniel de Sousa, Introdução à Sociologia, Lisboa 1977, pp. 16-17

[2] Aristóteles, Política, Lisboa 1970, pp. 43.


 

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