|
I. 3.2. A ACTUAÇÃO DOS GOVERNOS Bem diferente do que estaria
para chegar. Afastado este determinismo, o homem não se considera um produto feito, pré-fabricado,
mas que requer construir-se com referência a um projecto biográfico, um “eu
tecendo-se na trama de uma circunstância”, relembrando Ortega
y Gasset, circunstância essa que não pode ser
escolhida e, por isso, como refere Marx no início
do seu Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte, os homens fazem a sua própria história,
não como a desejam, mas conforme as circunstâncias directamente encontradas,
dadas e transmitidas do passado. Os governos não deixam de
reflectir o eu e a circunstância que os urdiu. Da ditadura à democracia
emerge sempre um projecto, um conjunto de valores, que reflectem a teia que
os teceu. Um governo opressivo e
tirano tenta fundamentar a sua existência por referência a valores de ontem[1] e de
agora que, tidos como elevados, condicionem o comportamento social em seu
proveito. Em certas comunidades, proibir a mulher de sair à rua, encontra a
sua justificação no elevado conceito que dela se afirma. Mais
complexa (ou talvez não) parece ser a questão do governo que, vestido de
democracia, condiciona, do mesmo modo, o comportamento social. Parece, então,
que as diferentes formas de governo têm um carácter instrumental que visa
regular o comportamento social através do monopólio do uso da violência
legítima e da implementação de um sistema jurídico-político
dotado de competência sancionadora. A isto poder-se-ia chamar concepção mínima da função de um
governo. No entanto, um regime assumidamente opressivo
não se presta, por vezes, a fundamentar o injustificável (aos olhos dos seus
contrários), enquanto que o democrático justifica a sua função pela
necessidade de garantir uma convivência em que o bem jurídico – a paz social
- supere os sacrifícios que possa requerer a sua manutenção (não poderia um
regime opressivo argumentar da mesma forma?). |
[1] Marx
diria que a tradição de todas as gerações extintas impõe-se como um pesadelo
sobre a cabeça dos vivos.
|
|
||||