I. 2. O SER PRÉ-SOCIAL

       EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE COMUM

 

Sempre se constatou uma natural proximidade do que se reconhece comum. Parece mesmo que o mundo se autoorganizou em torno deste princípio. Na preservação da espécie e auto-sobrevivência, os animais agrupam-se, num pré-determinismo, em torno dos que lhe são mais próximos ou dos que contribuem para essa mesma sobrevivência não a ameaçando directamente.

 

Os elementos comuns são determinantes na constituição dos grupos. Em torno do elemento mais difuso, constitui-se o grupo numericamente mais vasto e este tende a subagrupar-se, sucessivamente, em torno de elementos de menor amplitude. Os laços agregadores vão-se solidificando neste percurso, através dos elementos identificadores.

 

É-se europeu e ibérico e português e alentejano (na ordem decrescente do elemento comum – o geográfico). Neste exemplo, o elemento geográfico é o cimento agregador dos membros de uma dada comunidade. A força agregadora do elemento comum é inversamente proporcional à amplitude desse mesmo elemento, porque está mais próximo do sujeito.

 

No grupo ibérico pode haver algo que, pelo seu abstracto, não chegue a permitir que o sujeito se sinta identificado com ele. Abstracto significa aqui isso mesmo: inexistência de elementos que se identifiquem com o sujeito.

 

Isso permite introduzir uma nova característica ao elemento agregador: auto-identificação do sujeito com o elemento. Essa identificação é feita também por recurso a outros elementos que com ela interagem. Quantos elementos agregadores concorrem para o “ser-se” português?

 

O grupo tende a subagrupar-se, sucessivamente, em torno de elementos de menor amplitude e nesta tendência poder-se-á chegar a uma ausência de elementos comuns. Aqui não há grupo. Há um conjunto de sujeitos que com nada se identificam.

 

E se, a final, não há elementos comuns, que papel desempenha o conjunto de elementos intermediários que, entretanto, se foram construindo?

 

O elemento mais próximo do sujeito é decisivo, porque mais se identifica com ele e, como tal, maior força agregadora possui. Não é de estranhar que, por essa razão, desmoronado um elemento de grande proximidade, os outros possam deixar de fazer sentido. O que nos permite concluir da necessidade de um elo de ligação, um fio condutor entre os diversos elementos estruturadores dos mais variados subgrupos.

 

Não deixa de ser particularmente significativa a expressão do primeiro astronauta a sobrevoar a terra: “Daqui não se vêem fronteiras!” A cultura das fronteiras é uma construção do homem. Mais que a delimitação do espaço físico ou geográfico, o homem instituiu a sua “imagem de marca” ao construir o seu espaço antropológico. Espaço que se foi constituindo na dependência não só da técnica, mas especialmente dos afectos, da linguagem, da cultura, das convenções, dos sentidos e das representações.

 

Na ausência de elementos comuns, o que é que resta? O vazio-solidão é um elemento, por natureza, anti-agregador (e, por extensão, antigrupo e anticomunidade). Será possível conceber uma comunidade que tem em comum nada ter em comum? Os membros de tal comunidade teriam uma existência desprovida da capacidade de se inter-relacionar numa base de comuns pontos de interesse. O ser social seria aqui algo de desconhecido e deslocado.

 

           É neste contexto de grupos e subgrupos que se ergueram as comunidades de ontem e de hoje. A separá-las estão as motivações (e identificações) dos elementos agregadores. As comunidades com profundas carências primárias priorizam a sobrevivência e, em torno desse elemento, erguem a sua razão de existir. O homem só pensa depois de ter a barriga cheia (ou numa perspectiva bíblica: “não pode falar-se para estômagos vazios”), mas, para isso, carece de se organizar em torno de um sentir e desejar comum, de um imperativo que permita a sua sobrevivência e consequente reprodução.

 


 

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