|
EM
BUSCA DE UMA IDENTIDADE COMUM Sempre se constatou uma
natural proximidade do que se reconhece comum. Parece mesmo que o mundo se
autoorganizou em torno deste princípio. Na preservação da espécie e
auto-sobrevivência, os animais agrupam-se, num pré-determinismo, em torno dos
que lhe são mais próximos ou dos que contribuem para essa mesma sobrevivência
não a ameaçando directamente. Os elementos comuns são
determinantes na constituição dos grupos. Em torno do elemento mais difuso,
constitui-se o grupo numericamente mais vasto e este tende a subagrupar-se,
sucessivamente, em torno de elementos de menor amplitude. Os laços
agregadores vão-se solidificando neste percurso, através dos elementos
identificadores. É-se europeu e ibérico e
português e alentejano (na ordem decrescente do elemento comum – o
geográfico). Neste exemplo, o elemento geográfico é o cimento agregador dos
membros de uma dada comunidade. A força agregadora do elemento comum é
inversamente proporcional à amplitude desse mesmo elemento, porque está mais
próximo do sujeito. No grupo ibérico pode
haver algo que, pelo seu abstracto, não chegue a permitir que o sujeito se
sinta identificado com ele. Abstracto significa aqui isso mesmo: inexistência
de elementos que se identifiquem com o sujeito. Isso permite introduzir
uma nova característica ao elemento agregador: auto-identificação do sujeito
com o elemento. Essa identificação é feita também por recurso a outros
elementos que com ela interagem. Quantos elementos agregadores concorrem para
o “ser-se” português? O grupo tende a
subagrupar-se, sucessivamente, em torno de elementos de menor amplitude e
nesta tendência poder-se-á chegar a uma ausência de elementos comuns. Aqui não
há grupo. Há um conjunto de sujeitos que com nada se identificam. E se, a final, não há
elementos comuns, que papel desempenha o conjunto de elementos intermediários
que, entretanto, se foram construindo? O elemento mais próximo
do sujeito é decisivo, porque mais se identifica com ele e, como tal, maior
força agregadora possui. Não é de estranhar que, por essa razão, desmoronado
um elemento de grande proximidade, os outros possam deixar de fazer sentido.
O que nos permite concluir da necessidade de um elo de ligação, um fio
condutor entre os diversos elementos estruturadores dos mais variados
subgrupos. Não deixa de ser
particularmente significativa a expressão do primeiro astronauta a sobrevoar
a terra: “Daqui não se vêem fronteiras!” A cultura das fronteiras é uma
construção do homem. Mais que a delimitação do espaço físico ou geográfico, o
homem instituiu a sua “imagem de marca” ao construir o seu espaço
antropológico. Espaço que se foi constituindo na dependência não só da
técnica, mas especialmente dos afectos, da linguagem, da cultura, das
convenções, dos sentidos e das representações. Na ausência de elementos
comuns, o que é que resta? O vazio-solidão é um elemento, por natureza,
anti-agregador (e, por extensão, antigrupo e anticomunidade). Será possível
conceber uma comunidade que tem em comum nada ter em comum? Os membros de tal
comunidade teriam uma existência desprovida da capacidade de se
inter-relacionar numa base de comuns pontos de interesse. O ser social seria
aqui algo de desconhecido e deslocado. É neste contexto de grupos e
subgrupos que se ergueram as comunidades de ontem e de hoje. A separá-las
estão as motivações (e identificações) dos elementos agregadores. As
comunidades com profundas carências primárias priorizam a sobrevivência e, em
torno desse elemento, erguem a sua razão de existir. O homem só pensa depois
de ter a barriga cheia (ou numa perspectiva bíblica: “não pode falar-se para
estômagos vazios”), mas, para isso, carece de se organizar em torno de um
sentir e desejar comum, de um imperativo que permita a sua sobrevivência e
consequente reprodução. |
|
|
|
||||
|
|
||||
|
|
||||